Orkut (ou como viver feliz no curral da web)

Para muitos, o acesso à internet limita-se às páginas do Orkut. Uma verdadeira geração parece mais preocupada em tratar-se como um tamagotchi do que atuar de forma colaborativa.

Carlos d´Andréa

Como sempre aconteceu com qualquer nova mídia, a internet tem sido, desde o início de sua popularização, vítima de acalorados ataques por parte de pessimistas de plantão, normalmente afeitos a formas anteriores de produção e disseminação de “cultura” e informações.

Do mesmo modo, há do outro lado o time de entusiastas do novo, sempre prontos para citar e exaltar as últimas pesquisas e lançamentos tecnológicos.

No entanto as novas tecnologias da informação e da comunicação, assim como as técnicas cada vez mais importantes em nosso dia-a-dia, não são o mal ou o bem em si – são criações do nosso tempo e só “existirão” a partir do nosso uso.

Principalmente se falamos de internet, um meio por natureza aberto, flexível e descentralizado, isto é, que permite e depende da participação de todos os pontos na composição de uma rede. Nas palavras de Manuel Castells , “não é a Internet que muda os comportamentos (...) os comportamentos se apropriam da Internet, amplificam-se e potencializam-se a partir do que são”.

Seguindo esta visão, é impossível não deixar de notar o fenômeno Orkut, principalmente entre os usuários brasileiros, que se orgulham de ser a maior comunidade nacional. Vale lembrar que, quando lançado, o Orkut nada mais era que uma ferramenta – sem nenhuma inovação técnica, por sinal.

Foi a apropriação que cada um de nós fez dela que gerou seu conteúdo, portanto o uso que a maioria faz dela apenas reflete que, on ou off-line, estamos (principalmente os brasileiros?) muito mais dispostos a discutir amenidades que temas políticos ou sociais, por exemplo. Até aí nada de mais, é sempre bom reencontrar amigos de colégio ou ter à mão o e-mail de “todas” as pessoas que conhecemos.

O que não se pode deixar de observar, no entanto, é que uma verdadeira geração de usuários de internet tem, cada vez mais, limitado seu acesso à WWW aos limites das páginas do Orkut. Esqueça seu universo de heavy user, seja você um blogueiro ou um desenvolvedor, e preste atenção no usuário comum, aquele que você quer atingir através de um banner num site especializado, para o qual você produz um texto exclusivo ou um novo software.

Pois é, este usuário participa de inúmeras comunidades, mas não sabe o que é blog, ou se sabe acha que não passa de coisa de adolescente (“é pior que o Orkut...”); escreve scraps para os amigos, mas jamais fez um comentário a partir de um link externo indicado por um blog; não faz idéia do que seja newsletter, spam, lista de discussão ou fórum e usa o Google mal e porcamente. Podcasting e RSS, como esperado, nem pensar. Enfim: está muito mais preocupado em tratar-se como um tamagotchi nas páginas do Orkut do que posicionar-se como um membro colaborativo da WWW.

Não se trata aqui de considerar o “Iorgute” (como é carinhosamente chamado pelos mais íntimos) como o bode expiatório da internet. Seu uso exagerado é um sintoma de uma questão maior: uma gama significativa de usuários reconhece a internet apenas como meio de comunicação pessoal, e não como fonte sistemática de busca e troca de informações e instrumento de trabalho.

As exceções, me arrisco a dizer, são apenas as pesquisas emergenciais no Google, quando as primeiras ocorrências são copiadas e coladas ao trabalho ou relatório, num misto de preguiça e inocência.

Lembro-me do manifesto publicado em 2000 pelo professor da UFBA André Lemos: Morte aos portais, por ele definido como uma “estrutura de informação (conteúdo) que nos tratam como bois digitais forçados a passar por suas cercas para serem aprisionados em seus calabouços interativos”.

Se hoje ninguém mais se preocupa com o cerceamento causado pelos portais, sugiro uma nova pergunta: não estaríamos atualmente dentro de uma cerca ainda mais limitadora do horizonte vasto da internet?

Esteja você preocupado como o lado consumidor ou cidadão do usuário, vale pensar nisso. [Webinsider]

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CASTELLS, Manuel. Internet e Sociedade em Rede. In: MORAES, Denis de (org.). Por uma outra comunicação - mídia, mundalização cultural e poder. Rio de Janeiro, Record, 2003.p. 255-288.